Casa do Ribatejo 65

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ESPÉCIES CONDIMENTARES E ESPECIARIAS

José Alves Ribeiro

São muitíssimas as espécies vegetais usadas como condimentos e esses usos estão correlacionados com culturas ancestrais e com a instintiva tradição de acentuar a palatibilidade dos alimentos, a sua riqueza em sais e vitaminas, o seu poder de conservação e ainda como elementos tonificantes e até mesmo como elementos afrodisíacos.
            A pimenta, por exemplo (e outras especiarias) fora muito usada na Idade Média e na Renascença como conservante de alimentos. Juntamente com a salga, a seca, o fumeiro, a conserva em vinagre e outras técnicas ancestrais de conservação dos alimentos. Esses condimentos provenientes do Oriente são conhecidos por especiarias, chegavam bastante caras à Europa pela rota da seda e foram uma das motivações económicas das grandes navegações. Muitas das espécies condimentares são actualmentra muito cosmopolitaas e cultivadas por todo o planeta, algumas são da nossa flora, outras de origem exótica mas integradas na nossa flora como naturalizadas ou que já se cultivam no nosso país há décadas ou mesmo há séculos.Esses condimentos podem ser provenientes de folhas, de flores, de botões florais, de frutos, de sementes, de raízes, de bolbos, de tubérculos, de rizomas ou de outros propágulos vegetativos, ou mesmo de cascas como o caso da canela, que é casca de uma pequena árvore de origem asiática.
          O que se denomina CARIL não é uma espécie apenas, mas sim uma mistura de diversas especiarias, algumas de sabor picante, onde entram cominhos, alcaravias, curcumas, açafrões e outras, havendo diversas variedades de caril, condimento muito vulgar na culinária indiana e asiática, vulgarizado entretanto em toda a culinária internacional.
          O sumagre, arbusto mediterrâneo que já foi cultivado no nosso país para fornecer tanino para a indústria  de couros e curtumes, era muito usado como condimento no tempo dos romanos e ainda se usa actualmente com essa finalidade em algumas regiões do  médio oriente.
            Quanto à nossa flora, como mediterrânea que é, podemos afirmar que é bastante rica em espécies vegetais  condimentares que surgem espontâneas ou sub-espontâneas nos mais diversos habitats:

a) Bosques e carvalhais de feição sub-atlântica ( Entre Douro e Minho e Beira Litoral ) e macaronésica 
( Madeira e Açores ) onde surgem os loureiros ( Laurus nobilis L. e Laurus azorica ( Seub ) Franco ) das quais se utilizam as folhas ou no caso das ilhas, os paus de louro para as famosas espetadas.

b) Matagais, carrascais e zimbreiras em situações mediterrâneas ( Terra Quente duriense, Beiras, Alentejo e Algarve ) onde a biodiversidade é enorme e as plantas aromáticas são abundantes. É o caso do próprio zimbro 
(Juniperus oxycedrus L. ) cujas bagas podem aromatizar marinadas de carnes ou os conhecidos molhos de vinho e alho, também ditos de vinha-de-alhos.
            Também é nestes bosques e matagais mediterrâneos que se encontram os tomilhos, os rosmaninhos e os alecrins. Quando em solos menos ácidos e mais calcários, maior é a biodiversidade e a abundância do tomilho vulgar ( Thymus zygis L.), da salva ( Salvia officinalis L. ) e do alecrim ( Rosmarinus officinalis L.)  Em solos medianamente ácidos de xisto surge também com abundância a bela-luz (outro tomilho que é a espécie Thymus mastichina L.) e o rosmaninho ( Lavandula stoechas L.). Chama-se a atenção para o facto
de na região bragançana se denominar arçã ou arçanha ao rosmaninho, sal puro à bela luz e sal purinho ao tomilho vulgar. É também nestes bosques e matos mediterrâneos que vegetam os oregãos de que temos duas espécies: Origanum virens Hoff.et Link e O. vulgare L., ambos óptimos como condimentos e também como plantas medicinais.

c) - Em lameiros da Terra Fria, terras altas do Alto Minho, Alto Trás-os-Montes e Beira Alta, temos
outro tomilho denominado serpão - Thymus pulegioides L: mais herbáceo e mais rasteirinho que os outros dois tomilhos já referidos.

d)-Nas linhas de água há a assinalar três espécies condimentares muito importantes: o pôejo - Mentha pulegium L: de que as populações do Sul tiram maior partido na condimentação de comidas, a hortelã de água - Mentha aquatica L: também cultivada e de aroma semelhante à hortelã vulgar, (Mentha x rotundifolia L.) que é apenas cultivada pois é um híbrido entre outras duas espécies do género Mentha, o mesmo se passando com a hortelã pimenta. ( Mentha x piperita L. ) que também é um híbrido.                                           


Há uma terceira espécie do grupo das mentas que é também das beiradas dos rios, ribeiras e regatos, que é a Preslia cervina ( L.) Opiz conhecida por erva-peixeira na linguagem nortenha e como hortelã-da-ribeira no Alentejo e muito utilizada, na zona do Douro Superior e da bacia do Sabor como condimento dos deliciosos peixinhos do rio. Aliás esta plantinha começa a condimentá-los logo a partir do cabaz do pescador.

e) Finalmente vamos considerar espécies ruderais plantas das beiras dos caminhos, orla de bosques e matos. É o caso da erva-das azeitonas, mais frequente em regiões mediterrânicas e também conhecida por nêveda - Calamintha baetica Boiss. et Reuter ou C. sylvatica L.. Note-se que a verdadeira nêveda é outra espécie da mesma família botânica das Labiadas que é a Nepeta cataria L: usada como medicinal.Outra espécie muito frequente nestes habitats é o conhecido funcho ou fiôlho - Foeniculum vulgare Miller que à semelhança de outras aromáticas têm também propriedades medicinais, havendo uma variedade cultivada, o funcho hortense.

          Notas finais:

          No Algarve surge a alcaparra  Capparis spinosa L. planta muito mediterrânea e cacícola, pouco conhecida e pouco usada no Centro e Norte mas cujas bagas são usadas como condimento, sendo usual a sua utilização a condimentar  conservas de peixe ou marisco.Também se denominam «alcaparras» na Terra Quente Transmontana a azeitonas alcaparradas, por vezes como simplificação de linguagem. São apenas azeitonas verdes, descaroçadas e em conserva, ficando com aspecto semelhante às alcaparras.
         Outras espécies autóctones são usadas na nossa culinária tradicional, como os alhos bravos e  as segurelhas, estas também óptimas para condimentar azeitonas de conserva, à semelhança da calaminta e do tomilho. Outras são tão cosmopolitas que se julgam da nossa flora embora de oriem exótica, como é o caso do estragão ( Artemisia dracunculus L. ) de origem da Europa de Leste e usado na aromatização de vinagres e  do manjericão ou basílico,com origem no Indostão - Ocimum basilicum L. A salsa ( Petroselinum crispus  Miller ), umbelífera muito vulgar na nossa culinária e o coentro (Coriandrum sativum L.), também umbelífera e mais usada no Sul, sendo actualmente espécies de amplo cultivo a nível mundial, têm origem respectivamente na Europa Central e no Médio Oriente.

Segue-se uma listagem das mais usadas esécies condimentares e especiarias, ordenadas por ordem alfabética dos nomes vulgares mais correntemente usados em português e em inglês, os nomes científicos e as respectivas famílias botânicas e ainda a origem de cada espécie. Nalgumas espécies são ainda referidas algumas notas complementares.


1. AÇAFRÃO
Nome Científico Crocus sativus L.Família Botânica: Iridaceae - (Monocotiledónea)
Nome Vulgar Português: Açafrão;               Inglês: Saffron
Origem Região Mediterrânea e Médio Oriente.
2. AIPO
N.C.       Apium graveolum L. - Família Botânica:  Apiaceae ( Umbeliferae) – (Dicotiledónea)
N.V.       Português: Aipo; Inglês: Celeri
Orig.      Eupopa
3.ALCARAVIA, Alchirivia
N.C.     Carum carvi L.Fam. Bot.:  Apiaceae
N.V.     Português: Alcaravia ou cherivia;Inglês: Caraway
Nota—O Carum verticillatum (L.) Koch  - tb/ se denomina alcaravia, alchirivia e cominho-dos-prados
4. ALECRIM
N.C.       Rosmarinus officinalis L.Fam. Bot.: Lamiaceae ( Labiatae) - (Dicot.).
N.V.       Português: Alecrim; Inglês: Rosemary
Orig.      Reg. Mediterrânea
Nota: Também usada como espécie ornamental em parques e jardins.
5. ALFAZEMAS e Rosmaninhos
N.C.       Lavandula spp. - Fam. Bot.:  Lamiaceae.
Orig.      Reg.Mediterrânea.                                   
                                                                                                                                                                 

6.ALHOS E CHALOTAS
N.C.-    Allium spp.--  Fam.Bot.Alliaceae  (Liliacaeae)-Monocot.)
N.V.-      Alhos bravos, alhos cultivados e chalotas
Orig-    Europa
7. BASÍLICO OU MANJERICÃO
N.C.    Ocymum basilicum   L.- Fam. Bot.- Lamiaceae
N.V.     Português: Mangericão ou basílico; Inglês: Basil.
8. BAUNILHA
N.C.       Vanilla planifolia Andr.-Fam. Bot.: Orchidaceae (Monocot.)
N.V.       Português: Baunilha; Inglês: Vanilla
Orig.      América Central (tropical).
Nota: Esta espécie é uma liana e a parte útil é o fruto que é uma cápsula semelhante a uma vagem.
9. BENJOIM
N.C.     Styrax benzoin  Dryander sin. C. Paralleloneurus Perkins  Fam. Bot.: Styracaceae (Dicot.)
N.V.     Português: Benjoim; Inglês: Benzoin.
Orig.   Indo-Malaia.
10. CÁLAMO AROMÁTICO
N.C.     Acorus calamus L. Fam. Bot.:Araceae (Monocot.)
N.V.     Português: Cálamo aromático; Inglês: Calamus
Orig.   Pérsia / Médio Oriente.
Nota: Também usado como medicinal e na preparação de bebida (cerveja de cálamo).

11.              CARDAMOMOS
11.1-Cardamomo-menor; Cardamomo-do-Malabar-
N.C.       Elettaria cardamomum ( L.) Mat. - Fam. Bot.-Zingiberaceae 
N.V.       Português: Cardamomo; Inglês: Cardamom.
Orig.      Indo-Malaia.
11.2. Cardamomo-de-Bengala N.C.Amomum aromaticum Roxb.Fam. Bot.: Zingiberaceae-(Monocot.)
Orig.      Indo-Malaia.
11.3. Cardamomo-de-Java N.C. Amomum maximum L. sin.A. kepulaga Spr.            Fam. Bot.: Zingiberaceae
Orig.      Indo-Malaia.
11.4.Cardamomo-da-Indochina N.C.            Amomum kravanh Pier ex.Gah.           Fam. Bot. Zingiberaceae
Orig.   Indo-Malaia.
11.5. Cardamomo-do-Nepal N.C. Amomum subulatum           Roxb. Fam. Bot.: Zingiberaceae
Orig.   Indo-Malaia.
11.6. Cardamomo-de-Madagascar N.C.Aframomum angustifolium ( Son.)K.Sch.Fam. Bot.: Zingiberaceae
Orig.   África tropical.                            
11.7. Cardamomo-dos-Camarões N.C.Aframomum danielli;A. hanburyi K.Sch.Fam. Bot. Zingiberaceae
Orig.   África tropical.
Nota: Também se denomina ossame (nome africano).

12. CANELAS

12.1- Canela-de-Ceilão
N.C.        Cinnamomum zeylanicum Brey. sin.C.verum J.Presl  -  Fam. Bot.-Lauraceae (Dicot.)
N.V.        Português: Canela-de-Ceilão;Inglês: Cinnamon
Orig.      India e Ceilão.
12.2. Canela-da-China
N.C.     Cinnamomum aromaticum L.sin. C.cassia Blume - Fam. Bot.: Lauraceae
N.V.     Português: Canela-da-China; Inglês: Cinnamon
Orig.   Sul da China
12.3. Canela-de-Saigão
N.C.        Cinnamomum loureirii Nees - Fam. Bot.: Lauraceae
N.V.        Português: Canela-de-Saigão ou Cássia-de-Saigão; Inglês: Saigon cassia
Orig.      Indochina                                                                                                                                                                 
                                                                                   
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                
12.4. Canela-da-Batávia
N.C.       Cinnamomum burmanii   Nees ex Blume Fam. Bot.: Lauraceae
N.V.        Português Canela-da-Batávia ou Canela-de-Padang ou Canela-da-Indonésia
ou Cássia-da-Batávia ou Canela-verde; Inglês: Batávia; cassia.
Orig.      Malásia e Sumatra                                                                                             
Nota geral. - O que se usa como condimento das espécies deste grupo das canelas é a sua casca.
13. COMINHOS
N.C.     Cuminum cyminum L. - Fam. Bot.: Apiaceae
N.V.     Português: Cominhos;Inglês: Cummin.
Orig.   Reg.Medit. e Médio Oriente
Nota: A parte utilizada é a semente.(o fruto das Umbelíferas, actualmente Apiáceas,  é um fruto seco, múltiplo de dois mericarpos ou mini-frutos geminados secos e uni-seminais).
14.              CRAVINHO-DA-ÍNDIA
N.C.    Syzygium aromaticum Merril et Perry - Fam. Bot.: Myrtaceae (Dicot.)
N.V.       Português: Cravinho-da-Índia ou Cravo-de-cabecinha; Inglês: Cloves.
Orig.      Índia e Ceilão.
Nota: As partes utilizadas são os botões florais. O nome persa desta espécie é “garanfil”, que vai dar origem ao nome francês “giroflé ”. O nome malaio e javanês é “cengké.

15.         CURCUMAS (todas com origem Indo-Malaia)
15.1. Curcuma vulgar ou açafrão dos trópicos
N.C.       Curcuma domestica  Vahle C. longa              L. - Fam. Bot.: Zingiberaceae
N.V.       PortuguêsCurcuma ou Açafrão-dos-trópicos;   Inglês: Curcuma ou Turmeric.
Notas: Muito usado na preparação do conhecido condimento denominado CARIL - que é uma mistura de condimentos com inúmeras variantes-. Também usado como medicinal, como tintureira na coloração de tecidos e ainda em pinturas corporais.
15.2. Curcuma-de-Bengala
N.C.     Curcuma amada  Roxb. - Fam. Bot.: Zingiberaceae
N.V.     Português Curcuma-de-Bengala; Inglês Mango-ginger.
15.3. Araruta-da-India
N.C.     Curcuma angustifolia   Roxb.  C. leucorrhiza   Roxb.  e C. caulina  Gress. Fam. Bot.: Zingiberaceae
Nota: Usadas tb/ como farináceas na alimentação à semelhança da mandioca.
15.4-Curcuma-de-CochimN.C.                                        Curcuma aromatica Salisb.            - Fam. Bot.: Zingiberaceae.
15.5-Zedoaria
N.C.     Curcuma zedoaria ( Berg) Roxb. - Fam. Bot.: Zingiberaceae
N.V.     Português Zedoária; Inglês Zedoary.
Nota: Usada no caril
15.6. Zedoária-preta
N.C.       Curcuma coesia  Roxb. - Fam. Bot.: Zingiberaceae
N.V.       Português: Zedoária-preta; Inglês: Black-zedoary.
Nota: Usada no caril.
16. ESTRAGÃO
N.C.     Artemisia dracunculus         Fam. Bot.:  Asteraceae  ( Compositae) - (Dicot.)
N.V.     Português: Estragão; Inglês: Tarragon.
Orig.   Europa Central e Rússia. Muito usado para aromatizar vinagres.
17. FUNCHO, FIÔLHO ou ERVA DOCE
N.C.     Foeniculum vulgare  Miller;   Família Botânica:  Apiaceae
N.V.     Português: Funcho, fiôlho ou erva-doce; Inglês: Fennel.
Orig.   Reg. Mediterrânea.  Tb/ usado como planta medicinal                                                                              
                                                                                      
                                                                                                                                                                             
18. GALANGA
N.C.     Alpinia officinarum  Hance  e A. galanga L. -  Fam. Bot.: Zingiberaceae
N.V.     Português: Galanga; Inglês: Lesser-galangue.
Orig.   Indo-Malaia.                                                                                                                   
19. GENGIBRE
N.C.       Zingiber officinale  Rosc. - Fam. Bot.: Zingiberacea
N.V.       Português: Gengibre; Inglês: Ginger.
Orig.      Indo-Malaia.
20. GERGELIM ou SÉSAMO
N.C.       Sesamum indicum  L.  - Fam. Bot.: Pedaliaceae (Dicot.)
N.V.       Português: Gergelim ou sésamo;Inglês: Sesame
Orig.      Ásia Central
Nota: Esta espécie é essencialmente uma oleaginosa, embora se use também como condimento, principalmente na panificação (pão com sementes de sésamo).

21.              HORTELÃS

21.1. Hortelã-comum
N.C.     Mentha spicata L.e Mentha x rotundifolia  ( L.) Hudson Fam. Bot. Lamiaceae
N.V.     Português: Hortelã; Inglês: Mint
Orig.   Região Mediterrânea e Médio Oriente
Nota: A Mentha x rotundifolia é híbrida, propagando-se por via vegetativa (clonal) por rizomas.
21.2. Hortelã-mourisca ou hortelã-de-água
N.C.     Mentha aquatica  L.     Fam. Bot.: Lamiaceae
N.V.     Português: Hortelã-mourisca; Inglês: Water-mint.
Orig.   Região Mediterrânea e Médio oriente
21.3. Hortelã-pimenta
N.C.       Mentha x piperita  L.    Fam. Bot.: Lamiaceae
N.V.       Português: Hortelã-pimenta; Inglês: Pipermint.
Orig.      Esta espécie é híbrida, propagando-se por via vegetativa, à semelhança da
hortelã-comum.
21.4.Hortelã-da-ribeira ou erva – peixeira
N.C.    Mentha cervina   L.  sin. Preslia cervina (L.) Opiz - Fam. Bot.  Lamiaceae
N.V.     Port.   Hortelã-da-ribeira ou erva-peixeira; 
Orig.   Re. Mediterrânea.
21.5 Poejo
N.C. - Mentha pulegium   L.-Fam. Bot. Lamiaceae
N. V. – Poejo
Orig. – Reg. Mediterrânea
22. LOURO
N.C.     Laurus nobilis  L. e    Laurus azorica ( Seub.) Franco Fam. Bot.: Lauraceae (Dicot.)
N.V.     Português: Louro ou Loureiro; Inglês: Laurel-tree
Orig.   Europa Mediterrânea e Macaronésica (ilhas atlânticas).
23. MOSTARDA - BRANCA
N. C.            Sinapis alba    L.    Fam. Bot.: Brassicaceae ( Cruciferae) -( Dicot.)
N. V.           Português: Mostarda – branca; Inglês: Mustard
Utilidade    As sementes usam-se como condimento – molho de mostarda. Tb/ usada em cataplasmas na medicina caseira.
Origem       Médio Oriente
Reg. onde se cultiva          Regiões de clima temperado-mediterrâneo e sub – tropical.
                                                                                  
                                                                                                                                                                                                                                                                                      
24. – MOSTARDA – PRETA
N. C. – Brassica nigra  (L.)Koch   Fam. Bot. Brassicaceae (Cruciferae)
N. V.  – Mostarda – preta.
Orig. – Reg. Medit.                                                                                                                                
24. NOZ - MOSCADA ou MACIS
N.C.     Myristica fragans Hout. - Família Botânica: Myristicaceae (Dicot.)
N.V.     Português: Noz-moscada; Inglês: Nut-meg
Orig.   Índia e Ceilão (há dúvidas se não terá origem nas Molucas – ilhas de Banda e Amboíno).
Notas: I - O nome “moscada” provém do termo persa “mosk” que significa almíscar. O almíscar é um aroma forte extraído dumas glândulas de um veado ou gamo indo-chinês, havendo alguma semelhança entre esses odores.
II - A parte utilizada é a semente que é envolvida por um apêndice denominado “arilo”. A semente está num fruto seco deiscente (cápsula) que abre na maturação e tanto se usa a semente em natureza como também em pó.
III - Esta espécie, que é uma árvore, também é muito cultivada nas Caraíbas (América Central Tropical), sendo a ilha de Granada o maior produtor mundial.                                                                        
25.              ORÉGÃOS
N.C.     Origanum virens Hoffmans et Link  e O.vulgare LFam. Bot.- Lamiaceae
N.V.        Português: Orégos ou orégãos; Inglês: Origan ou Wild-marjoram.
Orig.      Região Mediterrânea
Nota: Esta espécie condimentar é também muito cultivada na América do sul sub-tropical e temperada (Argentina, Uruguai, Paraguai e sul do Brasil) e exportada para todo o mundo, dado o seu grande uso na culinária mediterrânea, a começar pelas vulgaríssimas pizzas italianas.

26.              PIMENTAS

26.1. Pimenta-negra da India
N.C.        Piper nigrum L. -                        Fam. Bot.: Piperaceae ( Dicot.)
N.V.        Port.: Pimenta ou Pimenta-da India; Ingl.: Pepper.
Orig.      Índia e Ceilão.
Nota: Desta mesma espécie se extrai a chamada pimenta vermelha (frutos imaturos) e a pimenta branca, em que os frutos ( pequenas bagas ), em vez de secas inteiras, como na pimenta preta, são previamente despolpadas, como se faz com as bagas do café.
26.2.   Pimenta-de-rabo da Indonésia
N.C.            Piper cubeba L. - Fam. Bot.: Piperaceae
Orig.          Indonésia.
Nota: Também usada como medicinal em doenças venéreas.
26.3. Pimenta-de-rabo Africana
N.C.     Piper guineense Sch. et Tonn. - Fam. Bot.: Piperaceae
Orig.   África Ocidental
26.4. Pimenta-longa
N.C.        Piper longum  L.Fam. Bot.: Piperaceae
Orig.   Nepal e Norte da India.
26.5. Pimenta-betel
N.C.       Piper betle L. e  P. minialum L. - Fam. Bot.: Piperaceae
Orig.   Ásia tropical
Nota - Os nativos da Ásia tropical usam as folhas misturadas com sal e com fragmentos de noz de Areca (uma palmeira – que aliás dá o nome à família botânica das Palmeiras, (ARECÁCEAS) e é essa mistura que mastigam, sendo também uma substância de propriedades tonificantes,algo alucinogénias e anti-inflamatórias.
                                                                                                                                                                     
                                                                                          
26.6. Kawa-kawa
N.C.         Piper methysticum Gob. et Cuz. - Fam. Bot.: Piperaceae
Orig.        Ásia tropical
Nota - Usada em certas ihas do Pacífico como tónico, embora seja tóxica em dose excessiva.
26.7. Pimenta-da-Jamaica
N.C.         Pimenta dioica  ( L.) Merril - Família Botânica: Myrtaceae-(Dicot.)
N.V.          Português: Pimenta-da-Jamaica; Inglês: Broad-pepper
Orig.        América Central tropical
Notas:
      I.Esta espécie, além de ser de outra família botânica e de outra origem fitogeográfica em relação às pimentas asiáticas, é uma espécie dióica como o abacateiro, a papaieira ou o kiwi.Estes grãos da pimenta da Jamaica são também algo picantes como os das pimentas asiáticas mas são de tamanho um pouco maior.
II.São tb/ usados nos países latino-americanos como condimento os grãos da pimenteira-bastarda, pequena e bonita árvore da família das Anacardiáceas, de origem da América do Sul e vulgar em parques e arruamentos no n/ país, sobretudo na cidade de Lisboa.

27. PIMENTOS
N.C.-CApsicum annuum L.;C.pUbescens R.& P.; C.baccatum  L., C.frutescens L.; C. chinense Jacq.
            Fam.. Bot.-Solanaceae - ( Dicot.)
N.V.--Pimentos, malaguetas, Chilis, pirpiri
Orig.-América Tropical e  sub-tropical

28. QUIABO
N.C.       Hibiscus esculentus L. - Fam. Bot.: Malvaceae (Dicot.)
N.V.       Português: Quiabo (nome de origem africana);          Inglês: Gumbo
Orig. África
29. SALSA
N.C. Petroselinum crispum ( Miller) Hill - Fam. Bot. - Apiaceae
Orig. Ásia Central
Nota: Esta espécie é muito cultivada em toda a Europa e noutros continentes, havendo variedades de folha mais lisa e outras de folha crespa ou frisada,que é a característica que lhe dá o adjectivo específico do nome científico..crispum
30. SEGURELHA
N.C. Satureja hortensis  L.  e  S. montana L.  Família Botânica-Lamiaceae
N.V. Português: Segurelha ou satureja; Inglês: Savory
Orig. Reg. Mediterrânea.
Nota:  A espécie mais cultivada é a S. hortensis que é uma espécie anual que se  ressemeia com facilidade.   A Satureja montana é uma espécie vivaz, com a vantagem de não ser necessário ressemear.

31. TOMILHOS
Família Botânica:  Lamiaceae
31.1. Tomilho-vulgar N.C. Thymus vulgaris L. e T. zygis L. N.V. Tomilho ou sal-purinho; Ing-Thyme         .
Orig. Reg. Mediterrânea.
31.2. Serpão ou serpilho N.C. Thymus serpillium  L. e T. pulegioides L.Em microclomas de altitude
31.3. Tomilho-rasteiro N.C.Thymus caespititius Brot. N.V. Português Tomilho rasteiro.
Orig. Reg. Medit..sub-atlântica e ilhas açoreanas.
31.4. Tomilho-do-monte ou bela-luz
N.C. Thymus mastichina  LOrig. Reg.mediterrânea.                                                                                         
Bibliografia                                                                                                                                                                     J.E.Mendes Ferrão -1993 –  Especiarias- Ed. I I CT - Instituto de Investigação Científica Tropical-Lisboa
Waverley Root et al – 1983-Hierbas y Especias- Ed.Editorial Blume-Barcelona
A. Proença da Cunha, J.A.Ribeiro e Odete Roque-2009-Plantas Aromáticas em Portugal-Ed. Gulbenkian-Lisboa
J.A.Ribeiro, A.Monteiro e Lurdes Silva-2000 – Etnobotânica, plantas bravias comestíveis, condimentares e medicinais  – Ed.João de                  Azevedo Editores - Mirandela
Fátima Rocha-1996-Nomes vulgares de plantas existentes em Portugal-Ed.DGPC - Min.da Agricultura-Lisboa  
                                                                                                  

                                                                                    

INOVISA(Instituto Superior de Agronomia) Portugal e Angola criam incubadora de empresas em Luanda

Novas ideias de negócio angolanas vão ter casa própria em 2012.  A Inovisa *(Instituto Superior de Agronomia) e a Universidade Agostinho Neto juntaram-se para criar o primeiro Pólo de Tecnologias e Empresas no país.

A INDUSTRIALIZAÇÃO do sumo e do gelado da múcua - uma fruta autóctone de África com propriedades antioxidantes e benéfica para os diabéticos - é um dos projectos com potencial de negócio que, em 2012, já pode ser desenvolvido no Pólo de Tecnologias e Empresas de Angola. O novo espaço resulta de uma parceria entre a Inovisa, incubadora de empresas do Instituto Superior de Agronomia (ISA) de Lisboa, e a Universidade Agostinho Neto.

Desenhado para albergar mais de 100 start ups, numa área total de 4.000 metros quadrados, o projecto exige um investimento de 300 a 450 mil euros, caso não seja necessário um novo edifício, mas pode a ascender a largos milhões de dólares se o Governo angolano decidir construir infra-estruturas de raiz. Para já, a ideia é alojar a incubadora na Universidade Agostinho Neto, que este ano ganhou novas instalações em Luanda.

Segundo os promotores do projecto, em Angola não falta potencial empreendedor, mas há um défice de capacidade de transferência de tecnologias e conhecimento do meio académico para o mundo empresarial. Foi por isso que, em 2009, o então reitor da universidade angolana, João Teta - hoje secretário de Estado para a Ciência e Tecnologia e representante de Angola no conselho executivo da Unesco -, fez uma proposta à Inovisa: fazer um estudo sobre a criação do primeiro pólo tecnológico e empresarial do país.

«Decidimos apresentar uma candidatura ao Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD) para elaborar o projecto em parceria com a Universidade Agostinho Neto, que teve início em 2010 e acabou em meados de 2011», conta o director da Inovisa, Luís Mira da Silva.

Os fundos do IPAD (cerca de 50 mil euros) e uma bolsa do programa INOV-Mundus - que permitiu enviar a investigadora Filipa Sacadura para Angola durante um ano - cobriram quase todas as necessidades de financiamento do plano de desenvolvimento, incluindo «actividades de apoio à criação de competências como workshops e formação em Luanda».

Apostas estratégicas

O novo Pólo está vocacionado para quatro sectores: Tecnologias de Informação e Comunicação, Agricultura e Alimentação, Saúde e Biotecnologia, e Ambiente e Energia. São estas «as prioridades de desenvolvimento angolano para o período 2009-2013», sublinha Sebastião Tingão, do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia de Angola, que está agora em Portugal a«apreender as boas práticas de transferência de tecnologia» da Inovisa e a tirar «uma pós-graduação em Gestão no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa».

Com o projecto concluído, falta escolher o local da futura incubadora, que está a ser negociado com o presidente José Eduardo dos Santos: «Alguns cursos passarão para a Cidade Universitária e deixarão espaços no centro de Luanda que poderiam ser adaptados provisoriamente para este fim, até que se aguarde pela construção de um edifício próprio no novo campus», diz Tingão. A incubadora arranca em 2012 e promete pôr Angola na liderança dos países da SADC (Southern African Development Community) nas áreas da saúde e energia.

Outros PALOP poderão seguir o mesmo caminho. A Inovisa já se candidatou a fundos do IPAD para um plano de desenvolvimento de uma incubadora em Moçambique em parceria com a Universidade Zambeze. 

(2011-12-09 Salomé Pinto, Sol)

*INOVISA – Associação para a Inovação e o Desenvolvimento Empresarial tem como principal objectivo promover a valorização do conhecimento e da tecnologia desenvolvidos no Instituto Superior de Agronomia (ISA/UTL) e a relação entre a Universidade e as empresas, reunindo igualmente competências para o desenvolvimento de start-upsspin-offs, procurando assim criar uma cultura de inovação e empreendedorismo no meio académico. A INOVISA afirma-se como uma incubadora de base científica e tecnológica na sua área de actuação, nomeadamente nas áreas agrícola, alimentar, florestal, biotecnológica e ambiental.
Neste contexto, a INOVISA desenvolve actividades que se enquadram a três níveis complementares:
       Empreendedorismo e desenvolvimento empresarial
       Inovação e transferência de tecnologia
       I&D e formação


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A EXTINTA CULTURA DO SUMAGRE EM TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO


 José Alves Ribeiro, Eng. Agrónomo, Professor Emérito da UTAD

1 – Caracterização botânica e fitogeográfica do sumagre – Rhus coriaria L.

O sumagre, de nome científico Rhus coriaria L., é um arbusto da família das Anacardiáceas, família botânica de plantas ricas em resinas e taninos, onde também estão inseridas espécies como o cajú, a manga, o pistacho, a aroeira e a cornalheira, sendo estas três últimas espécies arbustivas do género Pistacia, sendo a cornalheira - Pistacia terebinthus L. - também frequente nas matas e mortórios da vegetação mediterrânea duriense. O sumagre tem a sua inserção fitogeográfica na grande região mediterrânea, mais precisamente na sua sub-região mais oriental, tendo-se expandido a sua cultura para toda a mediterraneidade. Os romanos já o utilizavam como condimento, sendo também muito antiga a sua utilização na preparação das peles e couros ou seja no artesanato e na indústria dos curtumes, utilização essa que entrou em declínio a partir do início do século XX, com o desenvolvimento de outras fontes de obtenção do tanino para a referida indústria.
É um arbusto de médio a grande porte, mesmo arborescente, de marcadas preferências por locais quentes e soalheiros, nas áreas de feição mediterrânea do nosso país, na Terra Quente e vale do Douro em Trás-os-Montes e Alto Douro, na Beira Interior, no Alentejo, no Algarve e nas Ilhas da Madeira e dos Açores onde também fora cultivado. Instala-se especialmente nos taludes e nas bordaduras de matos, de caminhos ou de campos de outras culturas, locais para onde a espécie se tem disseminado ao longo das últimas décadas, desde o abandono da cultura, tornando-se um arbusto naturalizado na paisagem vegetal e em certos locais tornando-se mesmo um arbusto potencialmente invasor de vinhas e pomares. Para uma breve descrição botânica podemos caracterizá-lo como um arbusto de folhagem caduca, ramoso, de rebentos e pecíolos vilosos, ou seja de muita pilosidade, de folhas compostas, imparifolioladas, de três a sete folíolos de forma ovado-lanceolada, de recorte crenado-serrado; flores pequenas, dispostas em panículas, de inserção terminal ou lateral nos ramos, sépalas esverdeadas e pétalas brancas, glabrescentes na página inferior e pubescentes a vilosas na página inferior; frutos em cachos tirsóides, sendo cada fruto uma pequena drupa, ou seja um fruto semi-carnudo de caroço, drupas essas densamente vilosas e de cor castanha purpurescente. Existem duas variedades desta espécie, denominadas «macho» e «fêmea», sendo a primeira variedade de maior porte e de folhas também maiores e lisas na página superior e de pecíolo alado na extremidade – ao contrário da variedade «fêmea» em que as folhas apresentam as duas páginas penugentas e de pecíolo não alado nos entrenós superiores.Estas designações nada têm a ver com a separação de sexos pois ambas são bisexuadas, ou seja esta espécie é monóica.

2 - Outras espécies do mesmo género Rhus

Uma outra espécie também mediterrânea embora com maior difusão pela Europa sub-mediterrânea da zona balcânica e húngara e ainda da Ásia temperada, é o denominado sumagre tintureiro, Rhus cotinus Scop., é usado como planta ornamental pelos seus longos cachos florais esverdeados, e também usado como tintureiro pela casca das raízes e rebentos juvenis, dando côr amarela alaranjada aos tecidos. Outra espécie próxima é o sumagre africano, Rhus pentaphyllum L.,de cinco folíolos, originário da região magrebina no Norte de África, também utilizado nos curtumes.
  Quanto às espécies americanas temos de assinalar o sumagre branco ou sumagre da  Colúmbia, Rhus glabra L., sem pilosidade, bastante taninoso mas também de boas qualidades como planta melífera, temos também o sumagre «corno-de veado» ou sumagre da Virgínia,  Rhus typhina L.,o sumagre copal, Rhus copallina L., de que se extrai uma boa resina e ainda o sumagre do Arkansas, Rhus cotinoides Nut.,cuja casca e lenho dão matéria corante amarela. Há que referir que os sumagres americanos foram sempre menos usados para os curtumes do que os mediterrâneos por darem couros demasiado corados. Ainda há a considerar os sumagres asiáticos, sendo de assinalar as seguintes espécies: o sumagre semi-alado, Rhus semialata Murray, que produz galhas muito ricas em tanino, o sumagre de cera, Rhus succedanea L., ornamental pela folhagem avermelhada
e produtor de uma cera que é extraída dos frutos, sendo também das drupas que se extrai a denominada laca-do-Japão, a partir de uma outra espécie asiática, Rhus vernicifera L., sendo o nome vernicifera muito apropriado pois com essa laca é preparado um excelente verniz.

3 – Utilizações dos sumagres

3.1 – Os sumagres na indústria dos curtumes

Já foram sendo indicadas algumas das potencialidades desta espécie e das espécies afins, mas iremos centralizar a matéria deste artigo na sua utilidade maior que é a sua utilização como fonte de tanino para a indústria de curtumes, embora tivesse caído em desuso a partir do início do século XX pela obtenção de outras fontes de taninos naturais em condições mais económicas, como cascas de quercíneas e o desenvolvimento pela indústria química dos taninos sintéticos, sendo o tanino fundamental na preparação de peles e couros, extraindo–lhes gorduras e conferindo-lhes certas propriedades de textura, matiz e durabilidade. Há que relembrar aqui a grande ligação da comunidade de origem judaica trasmontana, quer ao comércio de couros e peles – ainda actualmente são referenciados os peliqueiros de Carção e Argoselo no concelho de Vimioso, por exemplo – quer à correlacionada indústria de curtumes. Há que referir que o uso do sumagre nos curtumes passava por uma prévia preparação da matéria prima, sendo necessária a sua secagem e redução a pó em moinhos próprios, semelhantes aos do azeite, denominados atafonas. Era esse pó, muito rico em tanino, que se usava na indústria. De facto os sumagres são arbustos que apresentam em média uma proporção de 20 a 30 % de tanino na sua constituição, embora variando com as espécies e com as variedades. As referidas variedades do Rhus coriaria, que é o melhor e mais usado, variedades essas já referidas com as designações de «macho» e «fêmea», apresentam teores de tanino diferentes, mais elevado na variedade «macho» – 25 a 30% - e menor na variedade «fêmea» - 22 a 25 %.

3.2 – Outras utilizações dos sumagres

  Para além do uso na curtimenta de couros e peles, também já se indicou o uso de algumas espécies como tintureiras na indústria têxtil, havendo ainda outras utilizações a assinalar e algumas são muito antigas, embora ainda em uso no nosso tempo, como é a sua utilização como condimento.  Já no tempo do Império Romano se usavam na culinária pastas de sumagre, extraídas dos frutos, de sabor um pouco amargo, semelhante ao do limão, e esse uso como condimento ainda se verifica nalguns países do Médio Oriente, assim como se inclui como um dos ingredientes na preparação do denominado «zahtar», condimento salgado muito apreciado no mundo árabe, à base de sumagre, gergelim e tomilho. 
Também não se pode deixar de indicar o uso de certas espécies de sumagres como plantas medicinais, havendo alguns de cujas folhas e talos se preparam pastas utilizáveis na cura de eczemas e outros problemas de pele, sempre e só de uso externo, e só de certas espécies pois neste género existem espécies tóxicas e até venenosas, sendo uma das mais tóxicas o Rhus toxicodendron L.,como o próprio nome científico indica.

4 – Breve história da produção e comércio do sumagre em Trás-os-Montes e Alto Douro

Foi na transição do século XVII para o XVIII que a produção e comércio do sumagre atingiram o auge na região de Riba-Douro. Com o desenvolvimento da viticultura, sobretudo a partir da demarcação pombalina, este cultivo fora progressivamente substituído pela vinha, entrando em declínio, declínio esse apenas interrompido nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX, devido à grande crise provocada pela filoxera, em que o sumagre, juntamente com o cânhamo e o tabaco foram as culturas alternativas à vinha.
Mas nos meados e finais do século XVII o valor do sumagre transaccionado no mercado portuense para uso interno e exportação chegava a suplantar - o que é surpreendente - o próprio valor do comércio do vinho!
Mas já anteriormente, no século XVI,  há registos relativos ao comércio desta matéria prima, como um testemunho do cronista Rui Fernandes, datado de 1531 numa sua crónica muito curiosa intitulada « Descripção da Roda de Lamego duas Légoas» onde relata: «…neste circhoito das sobreditas légoas 15.000 arrobas de çumagre que carregavam pera lixboa e ao algarve e às ilhas e pera todo entre douro e minho e tralos montes e pera a beira…»Em registos do século seguinte, iremos confirmar a grande expressão da produção e comércio deste produto com a transcrição de  um excerto de um excelente artigo do Professor Francisco Ribeiro da Silva da Faculdade de Letras da Universidade do Porto intitulado « Porto e Ribadouro no século XVII – a complementaridade imposta pela natureza »: «…os produtos comercializados oriundos de Riba-Douro eram naturalmente o vinho, de que numa acta da Câmara do Porto de Agosto de 1647 é registada a entrada de cerca de 20.000pipas por ano de vinho de Lamego, o azeite, os citrinos e o sumagre...numa complementaridade em que o Porto, por terra ou por via fluvial, abastecia a região de Ribadouro de géneros básicos como o pão, o açúcar, o peixe seco, o sal, o vasilhame para o vinho, panos e instrumentos diversos…» Nesse artigo é–nos indicado que as primeiras notícias da exportação de sumagre datam de 1584 para Bristol pelos mercadores António Reimão e Anrique Soli, 200 e 210 arrobas respectivamente, sendo a arroba neste caso correspondente a vinte quilos. A exportação em sacos de pó de sumagre para apoio à indústria de curtumes do norte europeu - grande produtor de couros mas sem clima para esta planta mediterrânea – foi aumentando sempre ao logo dos séculos XVI e XVII e fora tal que nos finais do século XVI os sapateiros do Porto queixaram-se da falta e da carestia do sumagre para a curtimenta dos seus couros a tal ponto que foi editada uma regulamentação camarária que obrigava a que pelo menos metade do sumagre chegado ao Porto tivesse de ser comercializado no mercado interno e não pudesse ser exportado, o que obrigava também ao preço mínimo de 160 réis a arroba. Há registos de 1627 que nos informam de um movimento comercial anual de 20.000 sacos de cerca de  duas arrobas cada, ou sejam cerca de 40.000 arrobas e em 1667 esse valor ultrapassava as 54.000 arrobas, tendo Lisboa como destino cerca de 21.000 e o restante a exportação para a Alemanha, Inglaterra, França e Holanda. Como já foi referido, a seguir a este auge começa algum declínio desta cultura com a expansão do sector vitivinícola, sendo o registo do comércio de sumagre em 1786 de apenas 30.000 arrobas Não obtive dados da época da filoxera em que ainda houve algum ressurgimento do sumagre, mas sabe-se que a partir dos anos vinte do século passado o declínio foi sendo gradual e o último registo que possuo é de um artigo do Eng. Agrónomo Artur Carrilho, publicado na «Gazeta das Aldeias » em Janeiro de1940 em que refere que o sumagre do concelho de Foz-Côa passa por ser dos melhores do mercado pela riqueza em tanino e pelo cuidado na apresentação, refere ainda que no concelho de S. João da Pesqueira, em Vilarouco e Valongo dos Azeites, se costuma misturar a flor à folhagem na sua preparação o que faz baixar a sua qualidade. Também no referido artigo se faz referência ao aumento do preço devido à guerra, para um escudo e escudo e meio quilo do sumagre do Douro. Deve ter sido nestas décadas de quarenta e cinquenta que se cultivaram os últimos sumagres na nossa região, pois actualmente o sumagre é apenas mais um dos muitos arbustos que enfeitam a paisagem, enriquecendo a deslumbrante paleta de cores no douro outonal, mas também menos bem-vinda em situações de planta invasora, porém como cultivo é apenas uma memória do passado, e as atafonas que se mantêm estão também elas próprias votadas ao esquecimento e em vias de total ruína Como memória que é e, dada a importância que já tivera, é de justiça que algo se faça para que essa mesma memória seja preservada, talvez através do recentemente criado Museu do Douro, sendo naturalmente nesse sentido que este nosso artigo está a ser elaborado.


5 – Património sumagreiro


5.1  – Atafonas existentes e sua preservação

Atafonas são os moinhos onde se processava a redução da folhagem do sumagre a pó para posterior comercialização. Sabemos de algumas poucas atafonas que, embora em semi-ruína, ainda existem na nossa região transmontano-duriense, uma em Avarenta, no concelho de Valpaços, outra em Vale de Figueira, no concelho de S. João da Pesqueira - esta muito curiosa por ter a base em xisto - e ainda uma terceira em Muxagata, no concelho de Vila Nova de Foz-Coa, que é a que está melhor conservada, apesar de instalada num casinhoto de xisto transformado em loja de gado onde coabitam dois cães,uma mula e meia dúzia de pombas...Sei da existência de uma outra em Veiga de Lila, também no concelho de Valpaços que ainda não tive  oportunidade de visitar. Há registos da existência nos anos vinte do século passado de cinco atafonas ainda a funcionar no concelho de Foz-Coa, uma na freguesia de Mós e de quatro na própria vila. A referida freguesia de Mós era, à semelhança de Avarenta, de Tinalhas e de outras terras do nosso país, conhecida como terra de sumagreiros e uma crónica do século XVIII de um fidalgo desta terra D. Joaquim de Azevedo a descreve como tal: «…Mós fica em um estreito valle por onde corre um pequeno ribeiro que vem de S. Marcos e junta com outro dito Escorna Bois entre montes cheios de amendoeiras e sumagres, com boas hortas, muitas cebolas e algum pão…». Mas era nos taludes soalheiros, de solos pedregosos e pouco férteis para outras culturas, que o sumagre se instalava, como vem registado noutra excelente monografia, esta sobre os sumagreiros de Avarenta no oncelho de Valpaços, da autoria do Dr. Adérito Medeiros Freitas: «…Além dos sumagres espontâneos que abundam no monte baldio e nas ladeiras incultas, por entre o fragoedo, havia muitos sumagres plantados por estaca, nas ladeiras mais pobres de húmus…». Nesta aldeia de Avarenta a atafona está devidamente referenciada por este autor e o município de Valpaços está atento a este raro património, mas é possível que outras existam na região transmontano-duriense, deixando aos leitores esse desafio. Estas atafonas podem confundir-se com os antigos lagares de azeite, dada a semelhança da mó de granito – geralmente apenas uma – e com um eixo central que é um tronco de madeira que permitia rodá-la sobre um pio geralmente também em granito - em Vale de Figueira este pio foi feito com lajes de xisto - sendo essa grande roda puxada a força de animal, muar ou bovino. As folhagens do sumagre eram previamente secas ao sol e depois batidas com uns manguais para ficarem em pequenos pedaços que posteriormente eram moídos nas referidas atafonas, ficando reduzido a um pó que era ensacado e encaminhado para o comércio.
                                                                          
5.2 – Associação cultural ligada ao sumagre

Curiosamente – e como grande exemplo para nós transmontanos e durienses – é na Beira Interior, numa povoação de forte tradição sumagreira denominada Tinalhas, no concelho de Castelo Branco, que se organizou no ano 2000 uma agremiação cultural ligada ao seu passado sumagreiro: « SUMAGRE - Associação de Dinamização e Salvaguarda Patrimonial ».

5.3 - Publicações

Em Trás-os-Montes a única referência que conheço é o título do Boletim da Junta de Freguesia de Argoselo, no concelho de Vimioso que tem como título «Sumagre», o que dá ideia da consciência que os habitantes de Argoselo têm do seu forte passado peliqueiro e sumagreiro.

Bibliografia

-Adérito Medeiros Freitas – 2006 – « Os sumagreiros de Avarenta – cultura,colheita, transformação e exportação do sumagre » - Edição da Câmara Municipal de Valpaços.
-Artur Carrilho – 1940 – « Ainda o sumagre » - artigo na revista « Gazeta das Aldeias »
-Francisco Ribeiro da Silva – 2001 – « Porto e Ribadouro no século XVII – a complementaridade imposta pela natureza » - artigo na « Revista da Faculdade de Letras »

      Arbustos de sumagre nas margens do Douro    
   

                                               Atafona de Muxagata – concelho de Foz-Côa  
       

Atafona de Vale de Figueira - S.João da Pesqueira


                                                                    
                                                                       
                 

domingo, 4 de dezembro de 2011

Lenda sobre o café

João Lourenço


Por ter iniciado a minha vida profissional ligado à cafeicultura e cacauicultura em Angola, no primeiro lustro dos anos setenta e ter, mais tarde, no início dos anos noventa passado mais cinco anos, em S. Tomé,ligado àquelas duas culturas, como “não há amor como o primeiro” difícil se torna não sentir um chamamento para falar delas. Assim, dispus-me a escrever, ainda que de modo ligeiro, algo sobre café.

Segundo uma lenda sobre as origens do café, no século III d. C., um pastor de cabras, chamado Kaldi, que vivia na Etiópia, certa noite ficou preocupado quando suas as cabras não retornaram ao redil. Quando saiu à sua procura, encontrou-as saltitando próximo de um arbusto cujos frutos estavam mastigando e que, obviamente, foi o que lhes deu uma estranha energia que Kaldi nunca vira antes. Dizem que ele mesmo experimentou os frutos e descobriu que eles o enchiam de energia, tal como acontecera com o seu rebanho.

Kaldi levou essa maravilhosa "dádiva divina" ao mosteiro local, mas não teve bom acolhimento e, por isso, ele ateou fogo aos frutos, dizendo serem "obra do demónio". O aroma exalado pelos frutos torrados nas chamas, atraiu todos os monges para descobrir o que causava aquele maravilhoso perfume.

Os grãos de café foram separados das cinzas e recolhidos. O chefe dos abades mudou de ideias e sugeriu que os grãos fossem esmagados na água para ver que tipo de infusão resultava. Os monges bebendo a infusão logo descobriram que se mantinham acordados durante as rezas e períodos de meditação. Notícias dos maravilhosos poderes da bebida espalharam-se de um mosteiro a outro, propalando-se assim pelas diferentes regiões conhecidas. Esta é a lenda sobre como se iniciou o aproveitamento dos grãos de café como bebida, embora a sua disseminação pelo mundo fora se reporte ao século XVI.

Entre as pessoas que, diariamente, tomam a sua “bica” é comum ouvir-se “discutir” os efeitos da cafeína, quando ingerem uma bica “curta,”uma bica “normal” ou uma bica “cheia”. Defende a maior parte das pessoas que a bica “curta”, tendo o café mais concentrado, é mais forte e por isso sentem mais os efeitos da cafeína. Esclarece-se que a bica “curta” (*/-) 25cc) tem cerca de 87,0 mg de cafeína, a bica “normal” (+/- 35cc) cerca de 95,0mg e a bica “cheia” (+/- 45cc) cerca de 98 mg.
Hoje em dia, o hábito de beber café está espalhado por todo o mundo e tende a aumentar. Quem se lembrar da percentagem de pessoas que bebiam café em Portugal, há quarenta ou cinquenta anos e observar o que se passa hoje, notará a grande diferença. Daí a esperança dos países produtores de café em introduzir o hábito da bebida deste produto na China.