No passado mês de Setembro, numa ensolarada manhã de Sábado, resolvi visitar o palácio da Pena, onde já não ia há uns largos anos. No final da visita, fui passear pelo parque florestal onde, como sabem, fazíamos o exame prático de Silvicultura.
Este passeio teve como principal objectivo recordar o exame com o Prof. Azevedo Gomes (filho, porque no nosso curso o pai já estava jubilado). Lembrei-me daqueles dois dias em que calcorreámos a serra de Sintra a aprender os nomes das várias espécies florestais e do 3º dia, o do exame, também a caminhar pela serra e a desbobinar o que tínhamos aprendido nos dois dias anteriores.
Fui, pois, reviver os momentos passados nessa altura e, ao contemplar aquelas árvores majestosas, vieram-me à memória diversos nomes: Pinus, Sequoia, Chamaecyparis, Larix, Abies e outros. Alguns desses nomes já estavam quase esquecidos mas iam surgindo na memória à medida que caminhava.
A certa altura reparei numa tabuleta que indicava: Chalet da Condessa.
Com grande curiosidade, porque nunca tinha ouvido falar desse chalet, segui o itinerário indicado e, ao fim de uns bons 20 minutos, deparei com uma interessante construção em recuperação. Soube pelas informações colhidas no local que era o chalet da Condessa de Edla e que estava a ser restaurado porque em 1999 tinha sido muito afectado por um incêndio.
Soube também que o Prof. Mário de Azevedo Gomes que nutria grande carinho pelo parque da Pena era neto da Condessa de Edla.
Tentei então informar-me melhor sobre esta família e reproduzo aqui a parte mais interessante do que consegui saber:
“Mário de Azevedo Gomes nasceu em Angra do Heroísmo (Açores) por altura do Solstício de Inverno de 1885 (22.12.1885), sendo filho de Manuel de Azevedo Gomes e Alice Hensler, a filha de Elisa Hensler, mais conhecida por Condessa d'Edla. Era, pois, neto – o único neto rapaz – da Condessa d'Edla.
Casou com Cristina Leopoldina Sousa de Menezes Marcellin Chambica (1891-1982) em Sintra, a 07.08.1918, e teve 7 filhos (5 meninas e 2 rapazes, que se tornaram silvicultores – como o pai – e trabalharam também na elaboração da Monografia do Parque da Pena).”
Durante a década de 50 e início dos anos 60, orientou e elaborou vários estudos dedicados ao Parque da Pena: solos, clima e aspectos dendrológico-florestais.
Em 1960 publicou a obra que eternizou a sua paixão pelo Parque da Pena: a Monografia do Parque da Pena, na qual descreve detalhadamente o património natural e edificado do Parque e da anexa Tapada do Mouco, bem como de outros espaços adjacentes, como o Castelo dos Mouros, Tapada do Inhaca, entre outros.
Obra científica de assinalável rigor e profundidade, a Monografia apresenta também várias informações adicionais de relevante interesse para um mais profundo conhecimento da Pena, e o tom em que foi escrita transpira um Amor por aquele chão que deveria presidir a toda e qualquer intervenção no interior do Parque...
De acordo com João Rodil, conhecido investigador e escritor sintrense, a Monografia foi impulsionada pelo ciclone de 1941 (15.02.1941), que devastou todo o país, e que em Sintra – e na Pena – deixou profundas marcas.
Volvidos 48 anos após a sua publicação, a Monografia é ainda a principal fonte de informação sobre o Parque da Pena”.
Sobre a Condessa d’Edla e o chalet, obtive também informações interessantes:
A Condessa de Edla
Elisa Hensler, condessa d'Edla
Família e educação
De origem suíça-alemã, Elise Hensler era filha de Johann Friederich Conrad Hensler e de sua esposa, Louise Josephe Hechelbacher, e nasceu em La Chaux-de-Fonds, em Neuchâtel. Aos doze anos, emigrou com a família para Boston, nos Estados Unidos, onde recebeu uma cuidadosa educação. Amante das artes e das letras, terminou os seus estudos em Paris. Ao longo dos anos, tornou-se fluente em sete idiomas. Carreira
Após o término de sua educação, Hensler actuou no Teatro Alla Scala, em Milão, Itália. No dia de Natal de 1855, em Paris, aos dezanove anos, ela deu à luz uma menina, batizada Alice Hensler, cujo pai era desconhecido, sendo provavelmente um conde de Milão, do qual esteve noiva. D. Fernando II apaixonou-se pela bela cantora, então com vinte e quatro anos.
Além de cantora e actriz, Hensler era escultora, ceramista, pintora, arquitecta e floricultora.
Casamento com D. Fernando
D. Fernando II e Elise Hensler
Vida como esposa
O casal gostava de se refugiar em Sintra, onde D. Fernando tinha comprado o abandonado Mosteiro da Nossa Senhora da Pena. Deve-se o actual património florestal da serra de Sintra a D. Fernando, que sempre foi apaixonado pela botânica, e à cumplicidade da condessa d'Edla. Como resultado, as plantações do Parque da Pena intensificaram-se por volta de 1869 tendo Elise introduzido diversas espécies arbóreas. O rei e a condessa tiveram o apoio do cunhado americano de Hensler, o silvicultor John Slade. No meio do parque, a condessa iniciou a construção do chamado Chalet (chalé em Português), que ela mesma projectou, em estilo das casas rurais norte-americanas. Mulher culta, dedicou-se com o marido ao patrocínio de vários artistas, entre eles o mestre Columbano Bordalo Pinheiro e o pianista Viana da Mota. Em 1999, o chalet da condessa d'Edla foi consumido por um incêndio, sendo abandonado desde então.
Últimos anos e morte
Elise Hensler, depois disso, abandonou Sintra e passou a viver com sua filha Alice, que se casou com Manuel de Azevedo Gomes. Faleceu em Lisboa, aos noventa e dois anos, vítima de uremia.
O Chalet
História
Entre 1864-1869, D. Fernando II e a sua segunda mulher, Elise Hensler, Condessa d’Edla, desenvolveram, na designada Tapada da Vigia, uma forte intervenção paisagista de expansão do Parque da Pena, criando, numa área com cerca de 8 hectares dois novos espaços de elevado valor patrimonial e artístico: o Jardim da Condessa d’Edla, que envolve o Chalet, e a Quinta da Pena, entre o vale dos Lagos e o Chalet. Da Quinta da Pena já existiam, pelo menos, a Abegoria e o Aviário, mas datam da construção do Jardim as estufas e algumas casas de apoio a actividades agrícolas.
Influenciados pelo espírito coleccionista da época, D. Fernando II e a Condessa d’Edla, reuniram nestas áreas do Parque da Pena espécies botânicas provenientes dos quatro cantos do mundo, de que são especial exemplo os fetos arbóreos da Austrália e Nova Zelândia, cuidadosamente introduzidas de modo a criar um cenário romântico repleto de dramatismo. A aquisição de plantas inicia-se por volta de 1866, com grande envolvimento da Condessa.
Em 1885, D. Fernando torna a Condessa d’Edla herdeira de todos os seus bens, nomeadamente do Palácio e Parque da Pena, incluindo o Chalet e o Jardim “para que esta continue a sua obra”. Sob forte pressão pública, este testamento foi contestado pelo filho de D. Fernando, o Rei D. Luís, acabando o Estado por acordar com a Condessa, em 1889, a aquisição destes bens ficando esta como usufrutuária do Chalet e Jardim envolvente.
Em 1904, a Condessa renuncia a este usufruto e retira-se definitivamente do seu Jardim e Chalet.
Após a queda da Monarquia em 1910, o Palácio transita para a tutela do Ministério da Fazenda e o Parque e Chalet para a das Matas Nacionais (Ministério da Agricultura).
Na segunda metade do século XX, a falta de manutenção do Parque da Pena foi responsável pela sua grande degradação, de tal modo que, em 1994, o Conselho de Ministros, entregou a sua tutela ao Ministério do Ambiente, que imediatamente encomendou um Plano de Recuperação e Valorização, coordenado pelo Instituto Superior Técnico em colaboração com a Universidade de Aveiro.
Este plano não chegou a ser posto em prática.
Em 2000 foi constituída a sociedade de capitais exclusivamente públicos Parques de Sintra – Monte da Lua, SA (PSML) a quem foi confiada a gestão das principais propriedades do Estado situadas na zona da Paisagem Cultural de Sintra, Património da Humanidade, nomeadamente o Parque da Pena.
Na sequência de uma bem sucedida candidatura ao fundo EEA-Grants (fundamentalmente financiado pela Noruega) a PSML iniciou, em 2007, a recuperação do Chalet e, em 2008, através de uma nova candidatura, o restauro do Jardim da Condessa d’Edla e da Quinta da Pena.
O Edifício
O Chalet é um edifício com uma forte carga cénica (segundo o espírito romântico da época), caracterizado pela marcação horizontal do reboco exterior, pintado a imitar um revestimento em pranchas de madeira, e pelo uso exaustivo da cortiça como elemento decorativo.
A planta térrea é rectangular e a superior tem a forma de cruz.
As paredes do piso superior apoiam-se em arcos atirantados e encastram lajes de pedra de uma varanda a toda a volta. As coberturas, em telha cerâmica com interessante acabamento artesanal, são de duas águas na zona central e de uma água nos quatro cantos inferiores.
No interior, a organização em planta é muito simples: no piso térreo uma escada central, salas principais voltadas ao Palácio e compartimentos de serviço a Poente; no superior, um quarto de dormir mais amplo, virado também ao Palácio, e três compartimentos de apoio.
De novo são as soluções decorativas que merecem destaque: a pintura mural das escadas, do vestíbulo nobre, do tecto do quarto principal e do toilette da Condessa (ou quarto das Rendas), bem como o estuque decorativo da sala (das Heras), o revestimento em azulejo azul e branco da cozinha e, sobretudo, os painéis de embutidos de cortiça e madeira que revestiam as paredes e tecto da sala de jantar e do quarto de vestir do Rei.
A estrutura interior de pavimentos, tectos, escadas e paredes divisórias era em madeira e foi destruída pelo incêndio. A qualidade do projecto e construção é reduzida mas a dos acabamentos decorativos é muito boa, sabendo-se que os estuques foram da autoria de Domingos Meira e a pintura mural é atribuída a Domingos Freire.”
E aqui está como um simples passeio me levou a descobrir informações muito interessantes sobre a família Azevedo Gomes e as suas ligações à Silvicultura e ao Parque da Pena em Sintra.
José Constantino Sequeira